domingo, 2 de junho de 2013

O absoluto é obsoleto

Morte a todos os deuses e ídolos e tudo que a eles se assemelhe, que de seus altares de louvação não sobre nem as cinzas e toda ostentação seja inutilizada pelo mais libertário desdém. Chega de reverenciar e de contemplar tudo aquilo que está além de minhas forças, além de mim mesmo.
Nunca precisei de bússola para me mostrar o norte, meus passos sempre andaram por vias tortuosas, são trôpegos e indisciplinados, desprovidos de qualquer obstinação jamais iriam querer modelos norteadores para lhes conduzir a lugar nenhum.
Antes caminhar errante pela estrada do nada com minhas próprias pernas, que carregar a convicção de uma verdade apoiado em muletas alheias. Não se curvar diante do que está consagrado é o estopim da revolução, o começo de uma nova era.

Construo meu caminho com as pedras que vou encontrando pela frente, faço minha revolução na não conivência e na dissidência introspectiva. É inútil almejar o impossível, é por perseguir aquilo que está demasiadamente distante que o que pode ser mudado permanece inalterado.

Adelfo

sábado, 18 de maio de 2013

Titanomaquia (1993)

Felizes são os peixes 




Tanto faz

É igual

Felizes são os peixes

Felizes são os peixes

Tanto faz, é igual

Tanto faz, é igual

Felizes são os peixes

Felizes são os peixes

Nada, nada, nada, nada


Paulo Leminski


É tudo o que sinto




Inverno

É tudo o que sinto

Viver

É sucinto


quarta-feira, 1 de maio de 2013

De média classe



Estacionado em vaga fixa

Multado pela tentativa de pensar demais

Rebocado e preso até segunda ordem



No avesso de um hotel de luxo

o retrato de um momento necessário e industrial

No fim do mês a certeza da média classe representada

pelo conforto fabril e a segurança hospitalar



Receitas simples para se alcançar a mediocridade

Caminho da felicidade para um cidadão de bem

satisfeito com sua terra e obediente aos seus princípios



Amém

Feliz Dia do Trabalho

Aldous Huxley - Contraponto 




   Os homens vivem como idiotas, como máquinas, todo o tempo, tanto nas horas de trabalho como nas horas de folga. Como idiotas e como máquinas, mas imaginando que vivem como seres humanos civilizados, mesmo como deuses. O primeiro passo a dar é fazê-los reconhecer que eles são idiotas e máquinas durante as horas de trabalho. ‘Sendo a nossa civilização o que é’, eis o que será preciso dizer-lhes ‘vocês devem passar oito das 24 horas como uma espécie de intermediário entre um imbecil e uma maquina de coser. É muito desagradável, eu sei. É humilhante, é repugnante. Mas aí está... Vocês tem de fazer isso; de outra maneira. Toda a estrutura do mundo se fará em pedaços e nós morreremos de fome. Eis por que é preciso que vocês façam esse trabalho bestamente e mecanicamente; e que passem as horas de lazer como homens ou como mulheres verdadeiros e completos. Não misturem as duas vidas; mantenham os compartimentos bem estanques entre elas. O que importa acima de tudo é a vida autenticamente humana das horas de folga. O resto não passa de uma necessidade sórdida que é preciso satisfazer. E não esqueçam nunca que é efetivamente sórdida e – a não ser por permitir que vocês se alimentem e conservem intacta a sociedade – absolutamente sem importância, sem a menor relação com a verdadeira vida humana. Não se deixem enganar pelos patifes cheios de unção que falam da santidade do trabalho e do serviço cristão que os homens de negocio prestam aos seus semelhantes. Tudo isso são mentiras. O trabalho de vocês não passa duma tarefa repugnante e desagradável, mas que infelizmente é necessária por causa da loucura de nossos antepassados. Eles acumularam uma montanha de lixo, e é preciso que vocês fiquem a trabalhar dia e noite com suas pás procurando remover o monturo, de medo que o fedor dele os envenene e mate; é preciso que vocês trabalhem para respirar, maldizendo a memória daqueles insensatos que lhes deixaram todo esse trabalho ignóbil por fazer. Mas não procurem entregar-se-lhe de coração, fingindo que esse sujo trabalho mecânico é uma necessidade nobre. Não é verdade; e o único resultados que vocês obterão dizendo isso e crendo nisso será a abaixar a nossa humanidade ao nível dessa necessidade infecta. Se vocês acreditam nos negócios, como no serviço e na santidade do trabalho, vocês se transformarão simplesmente em idiotas mecanizados durante 24 horas, das 24 que tem um dia. Reconheçam que é um trabalho infecto, tapem o nariz, dediquem-se a ele durante oito horas e depois concentrem-se em si mesmos para ser, nas horas de folga, entes humanos verdadeiros. Seres humanos verdadeiros e completos. Não leitores de jornais, nem amadores de jazz, nem maníacos da radiofonia. Os industriais que fornecem às massas divertimentos padronizados e fabricados em série fazem o possível para torná-los, nas horas de lazer, os mesmos imbecis mecânicos que vocês são durante as horas de trabalho. Mas não permitam isso. É preciso fazerem um esforço necessários para serem humanos.’ Aqui está o que se deve dizer às gentes; eis a lição que devemos ensinar aos moços. É necessário convencer toda a gente de que toda essa magnífica civilização industrial não passa dum mau cheiro, e de que a vida verdadeira, a que significa alguma coisa, não pode ser vivida senão fora dela. Será preciso muito, muito tempo para que uma vida decente e o cheiro industrial se possam conciliar. Talvez sejam mesmo inconciliáveis. É o que ainda está para se ver... Seja como for, por hora é necessário atacar as imundícias de rijo, suportar o cheiro estoicamente, e, nos intervalos, tratar de levar uma vida verdadeiramente humana.
Aldous Huxley – Contraponto (1928) 


sábado, 13 de abril de 2013

Marcha

Mais um dia que já começa com aquela sensação constante de esgotamento físico e mental. O relógio da mesa de cabeceira avisa que é hora de acordar e encarar o matadouro. A rotina da morte diária será repetida em mais um longo e interminável dia. O jeito é levantar, tomar um banho e uma xícara de café ralo e rápido para não perder o coletivo que, invariavelmente, está tão cheio que as pessoas mais se parecem com sardinhas enfiadas dentro de uma lata. Homens e mulheres - ou o que restou deles - que mal acordaram de uma noite, também, mal dormida e já se acotovelam em busca de algo parecido com uma chance. Que saem de suas casas com o estômago e o cérebro quase vazios, mas com o firme propósito de conquistar seu pedaço de dignidade enquanto, na verdade, contribuem para o crescimento dos patrocinadores de sua fome e miséria. É a honrosa hora de ir para o trabalho. Todos seguem contentes, satisfeitos por saberem, no fundo de suas almas, que a recompensa um dia chegará. Dia a dia a procissão se repete; é uma cena triste e estranha. Os bois continuam seguindo para o abate.

quarta-feira, 6 de março de 2013

Espaço reservado para um momento Graciliânico.

( I )


E o homem ergue sua mão ensangüentada a procura de uma ajuda que não virá. Leva várias estocadas em suas costas. As incontáveis facadas dilaceram quase por completo aquela parte de seu corpo. Ele limpa sua “peixeira” de 12 polegadas nas roupas de grife daquele homem que agoniza. Um homem que tanto se gabava. Abastado. Raça superior. Agora ali, com a cara numa valeta podre de um beco fétido, como qualquer outro verme que habita este planeta.

ricardo silva